Meta leva anunciantes do Brasil, China e Vietnã à Justiça por golpes com uso de celebridades e técnicas avançadas de fraude
A Meta iniciou uma ofensiva jurídica global contra redes de anunciantes acusados de usar o Facebook e o Instagram para aplicar golpes em larga escala. Os alvos das ações estão no Brasil, China e Vietnã e, segundo a empresa, operavam esquemas sofisticados de fraude digital, com foco especial em campanhas conhecidas como celeb‑bait scams – anúncios que exploram imagem, voz e até vídeos manipulados de celebridades e figuras públicas para convencer usuários a cair em armadilhas financeiras e de consumo.
Como resposta imediata, a companhia bloqueou os principais instrumentos usados pelos grupos investigados: suspendeu métodos de pagamento vinculados às campanhas suspeitas, desativou contas de anúncios associadas aos golpistas e barrou domínios utilizados para redirecionar vítimas a sites maliciosos. A Meta indica que essas ações não são pontuais, mas parte de uma estratégia mais ampla para reduzir o espaço de atuação de redes profissionais de fraude que se alimentam de sua infraestrutura publicitária.
Além dos processos judiciais, a empresa também adotou medidas extrajudiciais. Oito consultores de marketing digital receberam notificações formais por oferecerem serviços para burlar os mecanismos de segurança e moderação de anúncios da plataforma. Entre os “serviços” anunciados estavam pacotes de “desbanimento” de contas, aluguel de perfis considerados confiáveis para veicular anúncios arriscados e até orientações sobre como mascarar a verdadeira origem de campanhas. Na prática, criava-se um submercado especializado em ajudar fraudadores a permanecerem ativos, mesmo após sucessivas punições.
Brasileiros entre os principais acusados
Pelo menos três anunciantes foram apontados como peças centrais nos golpes com uso indevido de celebridades: dois no Brasil e um na China. No caso brasileiro, as acusações envolvem o uso de imagens, áudios e vídeos manipulados de figuras públicas para vender produtos de saúde sem comprovação ou autorização regulatória.
Os brasileiros Vitor Lourenço de Souza e Milena Luciani Sanchez são acusados de conduzir campanhas que se apoiavam em deepfakes ou áudios alterados de pessoas famosas, supostamente recomendando suplementos, tratamentos milagrosos e outros itens de saúde. As vítimas acreditavam estar diante de depoimentos autênticos e, muitas vezes, realizavam compras de alto valor em busca de soluções rápidas para problemas médicos.
Também foram citadas as empresas B&B Suplementos e Cosméticos Ltda. (Brites Corp) e Brites Academia de Treinamento Ltda., além de Daniel de Brites Macieira Cordeiro e José Victor de Brites Chaves de Araújo. De acordo com a Meta, esse grupo teria estruturado uma operação que utilizava imagens sintéticas de um médico bastante conhecido para vender produtos sem aprovação de órgãos reguladores, bem como cursos que ensinavam terceiros a replicar o mesmo modelo de golpe. Ou seja, não apenas aplicavam fraudes, como também disseminavam o know-how criminoso, ampliando o alcance do problema.
Operação transnacional a partir da China
Na China, a empresa Shenzhen Yunzheng Technology Co., Ltd foi alvo de uma das ações por supostamente usar anúncios com celebridades para atrair vítimas em diferentes países, entre eles Estados Unidos e Japão. A estratégia era direcionar os usuários a grupos de “investimento” que, na prática, funcionavam como esquemas fraudulentos.
Os anúncios prometiam oportunidades exclusivas, lucros elevados e acesso direto a especialistas financeiros, muitas vezes utilizando nomes e imagens de pessoas famosas, empresários de renome ou figuras do mercado financeiro. Uma vez capturada a atenção do público, as vítimas eram induzidas a transferir somas relevantes a plataformas e corretoras falsas, nas quais os “rendimentos” exibidos eram manipulados até o momento em que o dinheiro desaparecia completamente.
Para tentar mitigar esse tipo de abuso, a Meta afirma já manter um programa específico de proteção de imagem para mais de 500 mil celebridades e figuras públicas. Esse programa busca identificar com maior rapidez quando nomes e rostos conhecidos são usados em contextos suspeitos, automatizando bloqueios e removendo anúncios que aparentem manipulação ou uso não autorizado.
Cloaking e fraude por assinatura no Vietnã
Outro processo foi movido contra o anunciante vietnamita Lý Văn Lâm, apontado como responsável por uma tentativa mais técnica de driblar os sistemas de revisão de anúncios: o uso de cloaking. Essa técnica consiste em mostrar uma versão “limpa” do site para os sistemas automatizados e equipes de moderação da plataforma, enquanto usuários reais são redirecionados para uma página totalmente diferente, carregada de armadilhas.
Nos anúncios, as ofertas pareciam inofensivas: produtos de grandes marcas com descontos agressivos, condicionados ao preenchimento de pesquisas rápidas ou formulários promocionais. Assim que a vítima concluía as etapas iniciais, era enviada para sites falsos, onde inseria dados de cartão de crédito para confirmar a compra. Os produtos, porém, nunca eram entregues.
Em diversos casos, as vítimas também relatam cobranças recorrentes não autorizadas, um esquema conhecido como fraude por assinatura. A partir de uma única transação, os golpistas inscreviam o cartão em cobranças mensais ou semanais, frequentemente escondidas em letras miúdas e termos de uso confusos, dificultando a contestação imediata.
Pressão regulatória e revisão de programas internos
A ofensiva jurídica da Meta se intensifica em um contexto de forte pressão regulatória e reputacional. Uma investigação recente revelou que, em 2024, cerca de 19% dos 18 bilhões de dólares em receita publicitária da empresa na China estariam vinculados a anúncios relacionados a golpes, jogos ilegais, pornografia e outros conteúdos proibidos. A repercussão internacional forçou a revisão do programa Badged Partners, que certificava agências e parceiros comerciais considerados confiáveis.
O levantamento expôs um dilema central: o modelo de negócios baseado em publicidade em larga escala tornou as plataformas extremamente lucrativas, mas também criou brechas exploradas por redes criminosas capazes de operar em escala industrial, movimentando grandes volumes de recursos e alcançando milhões de pessoas em poucos dias de campanha.
Números que revelam a escala industrial dos golpes
Um estudo da Gen Digital sobre o ambiente publicitário online na União Europeia e no Reino Unido trouxe um retrato preocupante do cenário. Em um universo de 14,5 milhões de anúncios analisados em apenas 23 dias, quase 31% continham links que levavam a golpes, páginas de phishing ou distribuição de malware.
Esses anúncios fraudulentos geraram mais de 300 milhões de impressões em menos de um mês, evidenciando a capacidade de alcance dessas operações. Outro dado alarmante foi a concentração: apenas 10 anunciantes foram responsáveis por mais de 56% dos anúncios maliciosos identificados. Muitas dessas contas estavam conectadas a estruturas de pagamento e infraestrutura de internet com vínculos à China e Hong Kong, sugerindo operações coordenadas e profissionalizadas.
Ecossistema criminoso: de malvertising ao “pig butchering”
As investigações recentes indicam que não se trata de golpes isolados, mas de um ecossistema estruturado de fraude digital, com diferentes camadas e especializações. Entre as práticas identificadas estão:
– Combinação de malvertising com o modelo de “pig butchering”: anúncios aparentemente legítimos de investimentos, trading ou criptomoedas direcionam usuários a “consultores financeiros” e “especialistas” – muitas vezes chatbots com IA ou atendentes treinados para estabelecer vínculos emocionais com a vítima. Aos poucos, a pessoa é convencida a investir quantias cada vez maiores. Quando tenta sacar os supostos lucros, é informada de que precisa pagar taxas adicionais. Após o último pagamento, o contato é cortado. Já foram mapeados mais de 23 mil domínios conectados a esse tipo de operação.
– Comprometimento de roteadores e manipulação de DNS: em alguns casos, criminosos conseguem alterar configurações de roteadores, redirecionando seletivamente o tráfego ligado a serviços como plataformas de autenticação ou comércio eletrônico para páginas fraudulentas muito semelhantes às originais. Assim, capturam logins, senhas e dados financeiros sem que a vítima perceba de imediato.
– Redes de notificações push maliciosas: usuários do navegador Chrome em dispositivos Android recebem alertas falsos de infecção por malware ou necessidade urgente de atualização. Ao clicar, são levados a sites que tentam instalar aplicativos maliciosos ou colher dados sensíveis.
– Clonagem de sites de escritórios de advocacia: mais de 150 sites foram identificados como cópias de páginas de escritórios jurídicos nos EUA e no Reino Unido. Eles ofereciam “serviços de recuperação” de valores perdidos em golpes anteriores, se aproveitando da vulnerabilidade de vítimas que já haviam sido enganadas uma vez.
Esse conjunto de práticas mostra a maturidade das redes criminosas, que operam com funções distribuídas: grupos especializados em compra de tráfego, outros em desenvolvimento de sites falsos, fornecedores de infraestrutura técnica e “atendentes” treinados para manipular emocionalmente as vítimas.
O avanço do “pig butchering-as-a-service” (PBaaS)
A disseminação desses golpes tem sido impulsionada por um modelo de negócios criminoso em ascensão: o “pig butchering-as-a-service” (PBaaS). Em vez de atuarem isoladamente, grupos especializados oferecem, em formato de pacote, toda a estrutura necessária para que outros interessados apliquem o golpe – desde os scripts de conversa até templates de sites, sistemas de gestão de vítimas e relatórios de desempenho.
Para quem adere ao PBaaS, basta investir dinheiro em anúncios e seguir os roteiros prontos. Assim, o número de operadores cresce rapidamente, enquanto a infraestrutura central permanece nas mãos de poucas organizações, que lucram de forma recorrente com a venda desse “serviço”. Isso dificulta ainda mais a repressão, pois não há um único núcleo visível, mas uma teia de afiliados espalhados por vários países.
Impacto para consumidores: do constrangimento ao endividamento
Os danos para as vítimas vão além da perda financeira imediata. Muitos usuários se sentem envergonhados por terem acreditado em anúncios com celebridades e “especialistas”, o que reduz as chances de denunciarem o golpe ou buscarem apoio jurídico. Em casos de fraudes por assinatura, o prejuízo é diluído em pequenas cobranças recorrentes, que às vezes passam meses despercebidas no extrato bancário.
Há ainda impactos psicológicos significativos, especialmente nos golpes de investimento: sensação de culpa, perda de confiança em instituições e até ruptura de relações pessoais, quando familiares alertam para a possibilidade de fraude e são ignorados. Para a sociedade, o quadro agrava a desconfiança em relação à publicidade digital como um todo, prejudicando também empresas sérias que dependem desses canais para alcançar o público.
Riscos para anunciantes legítimos e o mercado de marketing digital
As ações da Meta também enviam um recado contundente ao mercado de marketing digital. Consultores, agências e influenciadores que oferecem “atalhos” para burlar regras de anúncios podem se tornar alvos diretos de processos e sanções. Serviços de aluguel de contas, uso de identidades de terceiros, camuflagem de destino de clique e falsificação de métricas deixam de ser apenas uma “zona cinzenta” e passam a ser encarados como parte de um ecossistema criminoso.
Para anunciantes legítimos, o endurecimento das políticas tende a elevar custos de conformidade e exigências de documentação, porém também pode resultar em um ambiente mais confiável para marcas de longo prazo. A triagem mais rigorosa, se bem implementada, reduz a competição desleal com golpistas que inflacionam o leilão de anúncios e prejudicam a percepção de segurança dos usuários.
Como usuários podem se proteger desse tipo de golpe
Embora grande parte da responsabilidade esteja nas plataformas e nas autoridades, usuários podem adotar práticas para reduzir a exposição a celeb‑bait scams e outros golpes de anúncios:
– Desconfiar de ofertas “milagrosas” de saúde, emagrecimento ou investimentos, principalmente quando associadas a rostos famosos.
– Verificar se o perfil da celebridade realmente publicou aquele conteúdo ou se o anúncio aparece apenas como “patrocinado”, sem referência em canais oficiais.
– Evitar clicar em anúncios que levam a sites com endereço esquisito, erros de português grosseiros ou ausência de informações claras sobre a empresa.
– Conferir se há CNPJ, endereço físico, política de privacidade e canais oficiais de atendimento antes de inserir dados de pagamento.
– Monitorar extratos de cartão de crédito em busca de cobranças recorrentes desconhecidas, cancelando imediatamente e notificando o banco em caso de suspeita.
– Manter navegadores, sistemas operacionais e roteadores atualizados, bem como usar senhas fortes e, sempre que possível, autenticação em duas etapas.
Desafio global: cooperação entre plataformas, reguladores e autoridades
O cenário descrito evidencia que a simples remoção pontual de anúncios não é suficiente para conter um mercado de fraude altamente rentável e globalizado. A tendência é de aumento da cooperação entre plataformas, autoridades policiais e reguladores de diferentes países para rastrear fluxos financeiros, identificar operadores centrais e desmontar infraestruturas técnicas compartilhadas.
Ao mesmo tempo, cresce o debate sobre até que ponto empresas de tecnologia devem ser responsabilizadas por danos causados por campanhas fraudulentas veiculadas em seus sistemas. De um lado, há pressão para que adotem filtros mais rigorosos e mecanismos de verificação de anunciantes; de outro, teme-se que medidas excessivas acabem sufocando pequenos negócios e restringindo a liberdade de expressão comercial.
Futuro dos anúncios online em meio à era da IA e dos deepfakes
O uso de inteligência artificial para produzir imagens, áudios e vídeos hiper-realistas complicará ainda mais a identificação de conteúdo enganoso. Deepfakes de celebridades e especialistas de saúde ou finanças se tornarão mais baratos e acessíveis, ampliando o arsenal de estratégias usadas por criminosos.
Nesse contexto, a resposta das grandes plataformas tende a combinar três frentes: tecnologias de detecção automática de manipulação de mídia, endurecimento de políticas de verificação de anunciantes em setores de alto risco (como saúde e investimentos) e mais transparência sobre quem paga por cada anúncio e qual é o seu real objetivo.
A batalha contra os celeb‑bait scams e demais golpes digitais, portanto, não se resume a um conjunto de processos contra alguns anunciantes no Brasil, China e Vietnã. Trata-se de um embate estrutural sobre o futuro da publicidade digital, a proteção de consumidores e a responsabilidade de gigantes da tecnologia na construção de um ambiente online menos vulnerável à exploração criminosa.
