Metade dos clientes da VMware deve cortar uso até 2028 em meio a críticas à estratégia da Broadcom
Um movimento discreto, porém profundo, está mexendo com o mercado de virtualização corporativa. Levantamento da consultoria independente Virtified aponta que aproximadamente 50% das empresas que hoje utilizam soluções da VMware planejam reduzir sua dependência da plataforma até 2028. O dado não é apenas estatístico: ele sugere uma possível inflexão em um segmento que, por anos, foi praticamente sinônimo de VMware.
O centro dessa insatisfação está nas mudanças promovidas pela Broadcom, atual controladora da VMware. Desde a aquisição, a companhia vem reorganizando o portfólio e a forma de comercialização dos produtos, concentrando sua oferta no pacote de nuvem privada Cloud Foundation 9 (VCF 9). Em vez de licenciamento mais granular, com produtos isolados, muitos clientes agora se veem “empurrados” para um stack completo, que nem sempre faz sentido para suas realidades.
Para uma parte significativa das organizações, esse novo modelo resulta em aumento de custos sem contrapartida proporcional em benefícios. Especialistas ouvidos pela Virtified indicam que diversas empresas consideram o VCF 9 uma solução robusta demais para seu estágio de maturidade ou para o tamanho de seus ambientes, o que gera a percepção de que estão pagando por funcionalidades e componentes que não utilizarão de forma efetiva.
Além do impacto financeiro direto, surgem críticas à complexidade operacional do pacote. O VCF 9 reúne múltiplas ferramentas, camadas de gerenciamento, automação e recursos avançados, o que pode ser excelente para grandes corporações altamente digitalizadas, mas se transforma em sobrecarga para times de TI enxutos. Isso implica em mais tempo de administração, curva de aprendizado maior, necessidade de treinamento especializado e, consequentemente, elevação do custo indireto de operação.
Com esse pano de fundo, muitas empresas começaram a revisar com mais rigor suas estratégias de virtualização. Em vez de simplesmente renovar contratos ou migrar automaticamente para o VCF 9, alguns clientes já iniciaram movimentos graduais de diversificação, testando outras plataformas em partes específicas do ambiente – como novos workloads, filiais ou projetos de nuvem híbrida – antes de uma eventual migração em escala maior.
No entanto, abandonar ou reduzir significativamente o uso de VMware não é tarefa trivial. A base instalada é grande, há forte dependência de ferramentas e integrações legadas, além de processos de negócio críticos que rodam há anos sobre o stack da empresa. A pressão aumenta com o cronograma de fim de suporte para versões antigas: a linha 8.x, por exemplo, tem previsão de encerramento de suporte em outubro de 2027. Isso coloca muitas organizações diante de um dilema: investir pesado na adoção do VCF 9 ou assumir os riscos operacionais e de segurança de permanecer em plataformas sem suporte oficial.
Outro ponto que acende o alerta em equipes de TI e compras é a nova postura comercial atribuída à Broadcom. Segundo relatos do mercado, clientes que sinalizam interesse em reduzir o footprint VMware em seus data centers estariam enfrentando condições menos vantajosas nas negociações. Isso inclui desde a diminuição de descontos históricamente concedidos até propostas com cobrança próxima ao valor de tabela, tornando ainda mais difícil justificar internamente a continuidade da plataforma nos moldes atuais.
Apesar da insatisfação crescente, não se observa um êxodo imediato e massivo. Muitas organizações, especialmente as de grande porte, ainda preferem manter a VMware como pilar central de suas infraestruturas. Em boa parte dos casos, pesa a ausência de alternativas consideradas plenamente equivalentes em recursos, estabilidade e ecossistema; em outros, a migração é vista como um risco operacional alto demais, que exigiria testes extensos, revalidação de aplicações, redefinição de arquitetura e capacitação de equipes.
Ainda assim, o cenário competitivo está mudando. A Nutanix vem se consolidando como uma das principais rivais, especialmente no campo de hiperconvergência e nuvem híbrida. Microsoft, com o ecossistema baseado em Hyper-V e integração nativa ao Azure, oferece uma jornada mais fluida para a nuvem pública. Já a Red Hat se fortalece em ambientes que buscam virtualização alinhada a contêineres e Kubernetes, favorecendo estratégias de modernização de aplicações. Essas alternativas, que antes pareciam distantes da liderança da VMware, começam a reduzir a distância tecnológica e a se posicionar como opções concretas.
Essa reconfiguração do mercado de virtualização corporativa tende a revalorizar fatores que, por algum tempo, ficaram em segundo plano diante da dominância da VMware: flexibilidade de licenciamento, previsibilidade de custos, liberdade de escolha de componentes e facilidade de integração com diferentes nuvens. Em um contexto de orçamentos de TI pressionados e demanda crescente por eficiência, qualquer mudança brusca de modelo comercial tende a ser examinada no detalhe.
Para os clientes, o momento exige planejamento cuidadoso. Organizações que ainda rodam versões 7.x ou 8.x precisam construir roadmaps claros até 2027-2028, avaliando cenários como: migração plena para VCF 9; adoção de um modelo híbrido, em que parte do ambiente permanece em VMware e outra parte migra para competidores; ou transição gradual para outro provedor, priorizando workloads menos críticos no início. A ausência de um plano pode resultar em decisões emergenciais, mais caras e arriscadas.
Do ponto de vista de segurança cibernética, o problema é ainda mais sensível. Manter infraestruturas virtuais em versões antigas, sem suporte, aumenta a exposição a vulnerabilidades, falhas não corrigidas e incompatibilidade com soluções modernas de proteção. Profissionais de segurança alertam que, ao tentar postergar investimentos em atualização ou migração, algumas empresas podem acabar ampliando sua superfície de ataque e comprometendo requisitos de compliance regulatório, especialmente em setores como financeiro, saúde e governo.
Outro aspecto pouco discutido, mas relevante, é o impacto sobre o ecossistema de parceiros e integradores especializados em VMware. Mudanças bruscas de licenciamento e foco em grandes contratos podem reduzir as oportunidades para empresas de médio porte que tradicionalmente atuavam como consultorias, revendas e provedoras de serviços gerenciados baseados na tecnologia VMware. Esse movimento pode acelerar a diversificação desses parceiros para outras plataformas, que, por sua vez, ganham mais capilaridade e musculatura no mercado.
Para muitas equipes de TI, o debate que se abre vai além da escolha de um fornecedor específico: trata-se de repensar toda a estratégia de infraestrutura. Em vez de manter dependência alta de uma única plataforma, cresce o interesse por arquiteturas mais abertas, que combinem virtualização tradicional, contêineres, serviços de nuvem pública e soluções de edge computing. Nesse contexto, a decisão de permanecer ou não com a VMware passa a ser apenas um componente de uma discussão maior sobre resiliência, portabilidade e soberania tecnológica.
Do lado da Broadcom, a aposta em um pacote completo como o VCF 9 tem uma lógica clara: simplificar o portfólio, aumentar a receita recorrente e concentrar esforços em clientes de maior ticket médio. Porém, essa mesma estratégia pode acabar abrindo espaço para concorrentes em segmentos onde a flexibilidade e a modularidade são mais valorizadas do que um stack fechado, ainda que tecnicamente avançado. O equilíbrio entre rentabilidade e satisfação do cliente será decisivo para definir se a movimentação atual resultará em consolidação ou em retração da base instalada.
No horizonte até 2028, o mais provável é que o mercado de virtualização se torne mais fragmentado e plural. A VMware deve seguir relevante, especialmente em grandes corporações e ambientes legados críticos, mas dificilmente manterá o mesmo grau de hegemonia do passado. Para as empresas usuárias, isso pode ser positivo: mais competição costuma significar mais opções, negociações mais equilibradas e inovação acelerada.
Em última instância, o recado implícito nos dados da Virtified é claro: a confiança de longo prazo em um fornecedor de infraestrutura não depende apenas da qualidade técnica da solução, mas também da forma como esse fornecedor conduz sua política comercial, respeita a previsibilidade dos clientes e oferece caminhos viáveis de evolução. Ao ignorar esse equilíbrio, qualquer líder de mercado corre o risco de estimular, ainda que lentamente, a busca por alternativas.
