Especialista alerta que a inteligência artificial pode ampliar golpes durante o período eleitoral
O período eleitoral concentra a atenção da população, intensifica o compartilhamento de informações e aumenta a circulação de conteúdos políticos nas redes sociais. Esse cenário também é aproveitado por criminosos digitais, que recorrem à engenharia social, ao phishing e, cada vez mais, à inteligência artificial para aplicar fraudes, invadir dispositivos e roubar dados.
Para Alberto Jorge, CEO da Trust Control e especialista em cibersegurança, o eleitor precisa redobrar a atenção principalmente com links recebidos por aplicativos de mensagens e SMS. Embora muitas pessoas considerem o SMS um canal ultrapassado, ele continua sendo usado com frequência em campanhas maliciosas por apresentar altas taxas de abertura.
Os criminosos costumam explorar assuntos que estão em evidência para aumentar a curiosidade e estimular cliques impulsivos. No contexto das eleições, podem surgir falsas listas de candidatos “caçados”, supostos áudios vazados, denúncias urgentes, pesquisas eleitorais falsas e mensagens que prometem revelar informações exclusivas.
A armadilha geralmente começa com um link. Ao acessá-lo, a vítima pode ser direcionada a uma página falsa para entregar informações pessoais, baixar um programa malicioso ou fornecer senhas e códigos de autenticação. Em alguns casos, o invasor assume o controle do aparelho e utiliza o acesso obtido para realizar novos golpes contra contatos, empresas e contas digitais.
Golpes acompanham os temas de maior interesse público
A atuação dos cibercriminosos costuma seguir um padrão sazonal. Os temas mudam conforme o calendário e o interesse coletivo. Em diferentes períodos do ano, campanhas fraudulentas podem utilizar assuntos relacionados ao INSS, à Black Friday, ao Natal, à declaração de impostos ou a acontecimentos políticos.
Durante as eleições, o tema eleitoral passa a funcionar como uma isca poderosa porque desperta emoções, debates e preocupação. Mensagens com tom alarmista, promessas de revelações exclusivas ou pedidos urgentes de compartilhamento são especialmente perigosas. O objetivo é fazer com que a pessoa reaja rapidamente, sem verificar a origem do conteúdo.
O risco não se limita aos dispositivos pessoais. Muitos usuários acessam mensagens políticas em celulares e computadores utilizados também para trabalhar. Se o aparelho corporativo for infectado, a ameaça pode alcançar sistemas internos, arquivos compartilhados, credenciais de funcionários e dados de clientes.
Uma invasão desse tipo pode resultar em vazamento de informações, instalação de malware, paralisação de serviços e uso da rede da empresa como ponto de partida para novos ataques. Por isso, a segurança durante o período eleitoral deve ser tratada tanto como uma responsabilidade individual quanto como uma questão de proteção organizacional.
Inteligência artificial torna os conteúdos falsos mais convincentes
A inteligência artificial ampliou a capacidade dos criminosos de produzir textos, imagens, áudios e vídeos com aparência legítima. Ferramentas acessíveis permitem imitar a voz e a aparência de candidatos, autoridades, jornalistas e representantes de instituições.
Os chamados deepfakes podem apresentar declarações que nunca foram feitas, anunciar falsas decisões, divulgar supostos resultados ou atribuir a uma pessoa determinada opinião. Como esses materiais são produzidos com rapidez e podem ser adaptados a diferentes públicos, sua disseminação representa um desafio adicional para eleitores e instituições.
Também é possível utilizar IA para criar mensagens personalizadas, com linguagem adequada à região, ao perfil do destinatário ou ao assunto mais comentado naquele momento. Isso aumenta a eficiência das campanhas de fraude e dificulta a identificação do golpe apenas pela qualidade do texto.
Ainda assim, alguns sinais podem levantar suspeitas: movimentos labiais desalinhados, alterações bruscas na voz, expressões faciais artificiais, cortes estranhos, sombras incompatíveis e informações sem contexto. Nenhum desses indícios, isoladamente, confirma uma falsificação, mas eles devem motivar uma checagem mais cuidadosa.
Como se proteger de golpes durante as eleições
Links recebidos por WhatsApp, SMS, e-mail ou redes sociais devem ser tratados com cautela, mesmo quando parecem ter sido enviados por um conhecido. A conta dessa pessoa pode ter sido invadida ou a mensagem pode ter sido encaminhada sem verificação.
Antes de clicar, é importante conferir o remetente, observar o endereço do site e desconfiar de páginas que exigem dados com urgência. Em vez de acessar serviços por links recebidos, o usuário deve digitar diretamente o endereço oficial no navegador ou utilizar aplicativos legítimos instalados no aparelho.
Nenhuma instituição confiável deve solicitar senhas, códigos de autenticação ou informações bancárias por meio de páginas suspeitas. Também é recomendável habilitar a autenticação em dois fatores, preferencialmente por aplicativo autenticador, e utilizar senhas exclusivas para serviços importantes.
Áudios, vídeos e imagens apresentados como “vazamentos” precisam ser confirmados antes de qualquer compartilhamento. A verificação deve ser feita em canais oficiais, portais jornalísticos confiáveis, páginas institucionais e serviços especializados em checagem de fatos.
Outra medida essencial é manter o sistema operacional, os aplicativos e as ferramentas de segurança atualizados. As atualizações corrigem vulnerabilidades que podem ser exploradas por criminosos. Aplicativos também devem ser instalados somente de lojas oficiais, evitando arquivos recebidos por mensagens ou sites desconhecidos.
Cuidados para empresas e equipes
Organizações devem reforçar as políticas de uso de dispositivos durante o período eleitoral. Funcionários precisam saber reconhecer mensagens fraudulentas, páginas clonadas, pedidos de transferência e solicitações incomuns de acesso.
Treinamentos rápidos podem ajudar as equipes a identificar sinais de phishing, como erros no endereço do site, pressão para agir imediatamente, anexos inesperados e mensagens que pedem sigilo. Também é importante estabelecer um canal interno para comunicar incidentes sem medo de punição.
Empresas devem limitar privilégios de acesso, separar redes sempre que possível e manter cópias de segurança protegidas. O uso de contas administrativas no dia a dia deve ser evitado, pois uma infecção em uma conta comum tende a causar menos danos.
Caso alguém clique em um link suspeito, o ideal é interromper a interação, desconectar o dispositivo da rede quando houver indício de infecção e comunicar imediatamente a equipe responsável. Trocar senhas a partir de outro aparelho seguro e revisar sessões ativas também pode reduzir os prejuízos.
A principal recomendação é não compartilhar conteúdos políticos no impulso. Em um ambiente marcado por desinformação, automação e falsificações cada vez mais realistas, alguns segundos de verificação podem impedir o roubo de dados, a invasão de contas e a propagação de um golpe para dezenas de outras pessoas.
