China reduz exportações de terras raras e ameaça acelerar a expansão de datacenters
As novas restrições chinesas à exportação de terras raras já começam a pressionar a cadeia global de tecnologia. A redução no envio de materiais estratégicos pode afetar fabricantes de servidores, equipamentos ópticos, redes de comunicação e outros componentes indispensáveis para datacenters voltados à computação em nuvem e à inteligência artificial.
Entre os elementos que despertam maior preocupação estão o ítrio e o érbio. Dados recentes indicam que as exportações chinesas de ítrio diminuíram cerca de 75% neste ano, na comparação com 2025. O material foi incluído no primeiro grupo de sete terras raras médias e pesadas submetidas a licenciamento obrigatório pelo governo chinês em 2025.
Embora sejam utilizados em pequenas quantidades, esses elementos têm importância estratégica. O ítrio aparece na fabricação de LEDs brancos, telas, filtros de micro-ondas, lasers de estado sólido e capacitores cerâmicos. Esses componentes estão presentes em diversos dispositivos eletrônicos e sistemas de infraestrutura digital.
O érbio tem uma função especialmente relevante nas redes de fibra óptica. Ele é empregado em circuitos amplificadores que reforçam sinais ópticos durante a transmissão de dados. Sem esse tipo de tecnologia, seria necessário instalar equipamentos de regeneração com maior frequência, elevando custos e aumentando a complexidade das redes que conectam datacenters, empresas e usuários.
O impacto potencial é significativo porque a expansão da inteligência artificial depende de uma combinação de servidores de alto desempenho, sistemas de armazenamento, switches, cabos de fibra, lasers, fontes de alimentação e equipamentos de refrigeração. A falta de um material específico pode atrasar a fabricação de conjuntos inteiros, mesmo quando todos os demais componentes estão disponíveis.
A China iniciou as primeiras limitações às vendas internacionais de terras raras em abril de 2025, durante o agravamento das disputas comerciais com os Estados Unidos. Depois, Pequim anunciou regras mais abrangentes, exigindo licenças para a exportação de produtos que contivessem determinados materiais de origem chinesa.
A segunda etapa previa controles adicionais sobre cinco elementos, incluindo o érbio. No entanto, após negociações entre Estados Unidos e China, essas medidas foram suspensas por 12 meses em novembro de 2025. O período de suspensão termina em novembro de 2026, quando o governo chinês deverá decidir entre cancelar, prolongar ou restabelecer as exigências.
Também existe a possibilidade de que as restrições sejam ampliadas. A China pode incluir mais terras raras na lista de controle ou impor condições adicionais para produtos já processados. Essa perspectiva aumenta a incerteza para empresas que precisam planejar compras e contratos com vários anos de antecedência.
A concentração da cadeia produtiva ajuda a explicar o tamanho do risco. Em 2024, a China respondeu por aproximadamente 60% da mineração mundial de terras raras usadas na fabricação de ímãs. Nas etapas de separação e refino, sua participação alcançou cerca de 91%.
No caso do ítrio e do érbio, a dependência internacional é ainda mais acentuada. A China extrai aproximadamente 90% do ítrio produzido no mundo e processa praticamente todo o minério global para convertê-lo em materiais industriais, como o óxido de ítrio. O país também concentra a produção mundial de óxido de érbio.
Essa posição dominante não se limita à extração. O processamento de terras raras envolve instalações especializadas, conhecimento técnico, reagentes específicos e padrões rigorosos de controle de qualidade. Por isso, abrir uma nova mina em outro país não resolve imediatamente o problema: o minério ainda precisa ser separado, refinado e transformado em uma forma adequada para a indústria.
Os Estados Unidos vêm tentando diminuir essa vulnerabilidade por meio de investimentos públicos e acordos internacionais. Entre as iniciativas está o compromisso de US$ 750 milhões do Departamento de Defesa para assegurar o fornecimento de terras raras destinadas à produção de ímãs em uma unidade instalada no Brasil.
O Departamento de Energia também anunciou US$ 500 milhões para sete projetos relacionados ao processamento de minerais críticos, à produção de baterias e à reciclagem. Em fevereiro de 2026, Washington firmou acordos com representantes de 54 países durante o Critical Minerals Ministerial, com o objetivo de criar cadeias de fornecimento mais resistentes a choques políticos e comerciais.
Outra medida é o Project Vault, criado para formar uma reserva estratégica de minerais críticos. A iniciativa prevê até US$ 10 bilhões em financiamentos do Export-Import Bank dos Estados Unidos, permitindo apoiar produtores, processadores e empresas envolvidas na formação de estoques estratégicos.
Apesar desses esforços, a diversificação não será rápida. Uma nova mina pode levar anos para obter licenças ambientais, captar investimentos e iniciar a produção. A construção de refinarias e fábricas de componentes especializados exige ainda mais tempo, além de mão de obra qualificada e contratos de longo prazo.
Para os operadores de datacenters, o cenário pode resultar em aumento de custos, maior prazo de entrega e necessidade de manter estoques maiores. Projetos de expansão que dependem de equipamentos ópticos ou servidores específicos podem ser adiados caso os fabricantes não consigam garantir o fornecimento de materiais críticos.
Os efeitos também podem aparecer nos preços de serviços digitais. Se a aquisição de servidores, sistemas de rede e componentes de transmissão ficar mais cara, parte desse aumento poderá ser repassada aos provedores de nuvem, empresas de software e clientes corporativos. A pressão tende a ser maior em regiões que já enfrentam dificuldades para obter energia e equipamentos para novos datacenters.
A indústria pode reagir com algumas estratégias. Fabricantes devem buscar fornecedores em diferentes países, desenvolver componentes que utilizem menor quantidade de terras raras e investir em alternativas tecnológicas. A reciclagem de equipamentos antigos também pode recuperar parte desses materiais, embora os volumes atuais ainda sejam insuficientes para substituir a produção primária.
Outra possibilidade é a criação de contratos de fornecimento mais longos e estoques de segurança. Empresas que trabalham apenas com compras de curto prazo ficam mais expostas a mudanças repentinas nas licenças de exportação. Já os grandes grupos de tecnologia podem tentar financiar diretamente minas, refinarias e fábricas localizadas fora da China.
A reciclagem de fibras ópticas, equipamentos de telecomunicações e componentes eletrônicos tende a ganhar relevância. No entanto, a recuperação de ítrio e érbio é tecnicamente complexa, pois esses elementos aparecem em pequenas concentrações e estão misturados a outros materiais. Ainda assim, avanços nesse setor podem reduzir a dependência no longo prazo.
O risco não está restrito aos Estados Unidos. Empresas brasileiras também podem enfrentar impactos indiretos, especialmente aquelas que dependem de servidores importados, redes de alta velocidade e serviços de computação em nuvem. A disponibilidade e o preço desses recursos influenciam bancos, plataformas de comércio eletrônico, indústrias e órgãos públicos.
A revisão prevista para novembro de 2026 será, portanto, um momento decisivo. Se Pequim retomar ou ampliar os controles, a indústria de tecnologia poderá enfrentar uma disputa por materiais justamente quando a procura por infraestrutura de inteligência artificial cresce em ritmo acelerado.
A expansão dos datacenters não depende apenas de terrenos, energia e conexão de rede. Ela também exige acesso estável a uma cadeia internacional de minerais e componentes especializados. Enquanto alternativas à produção chinesa não atingirem escala suficiente, qualquer restrição adicional poderá transformar terras raras em um dos principais gargalos da próxima fase da economia digital.
