Sérvia: vučić perde eleição após denúncias de espionagem digital contra opositores

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Líder da Sérvia perde eleição após denúncias de espionagem digital

Aleksandar Vučić reconheceu, no domingo, a derrota na disputa pelo cargo de primeiro-ministro da Sérvia. O resultado veio após uma campanha eleitoral atravessada por acusações de vigilância contra opositores, jornalistas, manifestantes e integrantes do sistema de Justiça. Embora as denúncias tenham ampliado a pressão sobre o governo, as informações disponíveis não permitem afirmar que a espionagem tenha determinado o desfecho das urnas.

Vučić ocupa posições centrais na política sérvia desde 2014, período em que exerceu tanto a chefia do governo quanto a Presidência. Nos últimos dois anos, análises técnicas de aparelhos eletrônicos apontaram tentativas de invasão e possíveis infecções por programas espiões em celulares de dezenas de pessoas críticas à administração, entre elas ativistas, promotores, jornalistas e participantes de protestos.

Entre as ferramentas mencionadas está o Pegasus, um spyware capaz de acessar um celular sem que a vítima precise clicar em um link ou realizar qualquer outra ação. Esse tipo de ataque, conhecido como “zero-click”, pode ser particularmente difícil de perceber, já que a invasão não depende de um erro evidente do usuário.

Na semana que antecedeu a eleição, pesquisadores de segurança relataram que o telefone de Vladan Đokić, reitor da Universidade de Belgrado, teria sido comprometido pelo Pegasus. Đokić vinha resistindo às pressões do governo para apoiar medidas de repressão aos protestos estudantis. Em março, autoridades sérvias apreenderam computadores e servidores em seu escritório na capital, segundo as informações divulgadas pelos pesquisadores.

Outro caso envolve Rade Bajić, promotor que investigava possíveis irregularidades relacionadas a Vučić e a Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Kushner teria tentado adquirir um edifício histórico protegido em Belgrado para construir uma Trump Tower. A apuração de Bajić examinava suspeitas de que funcionários públicos teriam falsificado documentos para facilitar a negociação.

A organização sérvia SHARE Foundation informou que Bajić recebeu alertas da Apple sobre possíveis tentativas de espionagem com ferramentas comerciais, incluindo o Pegasus. Os avisos indicam risco de ataque, mas, por si só, não comprovam que o aparelho tenha sido invadido com sucesso.

As denúncias de vigilância digital no país remontam pelo menos a 2024, de acordo com Andrijana Ristić, pesquisadora da SHARE Foundation. No início, os casos envolviam sobretudo integrantes da sociedade civil, jornalistas e ativistas. Com o avanço dos protestos estudantis e a aproximação de um novo ciclo eleitoral, a vigilância teria alcançado também manifestantes e pessoas ligadas à disputa política.

A SHARE Foundation afirma que especialistas identificaram, em 2026, ao menos 15 pessoas cujos dispositivos foram alvo de spyware comercial na Sérvia. O número reúne episódios de tentativa de comprometimento e casos em que análises técnicas apontaram infecção. Portanto, nem todos os registros significam que os invasores conseguiram acessar os aparelhos.

As acusações também envolvem ferramentas de extração forense, normalmente empregadas para obter dados de celulares em investigações policiais. Segundo a Anistia Internacional, autoridades sérvias recorreram repetidamente a produtos da Cellebrite durante interrogatórios e detenções considerados fraudulentos. Em alguns episódios, as ferramentas teriam sido usadas não apenas para copiar informações, mas também para instalar programas espiões.

Em fevereiro de 2025, a Cellebrite anunciou que encerraria suas relações comerciais com o governo sérvio, depois de uma investigação apontar o uso sistemático de sua tecnologia para acessar aparelhos de cidadãos e instalar spyware. Ainda assim, semanas após o anúncio, foram identificados novos episódios nos quais ferramentas da empresa teriam sido utilizadas contra opositores. A Anistia também documentou tentativas de espionagem com Pegasus contra dois jornalistas investigativos em março daquele ano.

A diferença entre as tecnologias é relevante. Uma ferramenta forense pode exigir acesso físico ao celular e ser apresentada como recurso de investigação; um spyware avançado, por sua vez, pode permitir monitoramento remoto e oculto. Em ambos os casos, o uso sem base legal, transparência e mecanismos independentes de controle ameaça a privacidade e pode expor fontes jornalísticas, dados pessoais e comunicações políticas.

Para quem recebe um alerta de possível ataque, é importante não tratar a notificação como prova definitiva de invasão, mas tampouco ignorá-la. Preservar o aviso, registrar a data e buscar avaliação técnica independente ajuda a esclarecer o que ocorreu. Atualizar o sistema operacional, ativar recursos de proteção reforçada quando disponíveis e reduzir a exposição de dados sensíveis são medidas úteis, embora não garantam proteção contra ferramentas sofisticadas.

As acusações levantam ainda questões sobre a supervisão de contratos públicos e o destino de informações extraídas de celulares. Investigações desse tipo dependem de perícia confiável, regras claras para o acesso a dados e possibilidade de contestar abusos. Sem esses controles, tecnologias criadas para auxiliar apurações podem ser desviadas para intimidar críticos ou acompanhar adversários políticos.

O Ministério das Relações Exteriores da Sérvia foi procurado para comentar as denúncias, mas não havia respondido até a publicação das informações. Embora os relatos de espionagem tenham marcado o ambiente eleitoral, não há elementos suficientes para estabelecer uma relação direta entre as operações digitais e a derrota de Vučić. Ainda assim, a sucessão de casos tornou a vigilância estatal um tema central no debate sobre democracia, direitos civis e segurança digital no país.