Qualys aposta no brasil e em gestão autônoma de riscos cibernéticos

6 минут чтения

CEO da Qualys considera o Brasil estratégico e aposta na gestão autônoma de riscos cibernéticos

A digitalização acelerada da economia brasileira, a sofisticação do setor financeiro e o avanço da inteligência artificial colocam o país em uma posição cada vez mais relevante no mapa global da cibersegurança. Essa é a avaliação de Sumedh Thakar, presidente e CEO da Qualys, que esteve em São Paulo durante o ROCon LATAM 2026, evento dedicado a operações de risco e à redução proativa de ameaças digitais.

Na ocasião, o executivo analisou a evolução do mercado brasileiro, os novos desafios enfrentados pelas empresas e a transformação da própria Qualys. A companhia, tradicionalmente associada ao gerenciamento de vulnerabilidades, vem ampliando sua atuação para oferecer uma abordagem mais abrangente de gestão de risco cibernético.

Da identificação de falhas à redução efetiva do risco

A trajetória da Qualys começou com forte presença no segmento de gerenciamento de vulnerabilidades. A empresa foi uma das pioneiras na adoção do modelo SaaS para identificar falhas de segurança, em uma época em que o principal desafio das organizações era descobrir os pontos fracos existentes em seus ambientes tecnológicos.

Com o crescimento exponencial do número de vulnerabilidades, entretanto, surgiu uma dificuldade ainda mais complexa: saber quais falhas deveriam ser corrigidas primeiro e garantir que a correção realmente eliminasse o risco.

Encontrar uma vulnerabilidade não significa, necessariamente, que a empresa consiga resolvê-la. Muitas organizações acumulam milhares de alertas, mas não dispõem de contexto suficiente para distinguir uma exposição crítica de um problema de baixo impacto. Por isso, a Qualys passou a investir em recursos de priorização, validação e remediação.

A lógica é transformar grandes volumes de dados técnicos em decisões práticas. Em vez de apenas informar quantas falhas existem, a plataforma busca responder quais delas são exploráveis, quais ativos são essenciais para o negócio e qual medida pode reduzir o risco com maior rapidez.

Automação para acompanhar ameaças em tempo real

Entre as tecnologias destacadas está o InstaScan, desenvolvido com apoio do Agent Insta. A solução correlaciona continuamente novos avisos de segurança com o inventário de ativos, dados de telemetria e informações sobre ameaças. Dessa forma, pode ajudar a localizar sistemas potencialmente afetados sem depender exclusivamente de ciclos periódicos de varredura.

Outro recurso citado é o Agent Val, agente baseado em inteligência artificial integrado ao Enterprise TruRisk Management. Com o uso do TruConfirm, a ferramenta auxilia na verificação de que uma exposição priorizada é, de fato, explorável.

O processo envolve identificar a vulnerabilidade, confirmar a possibilidade de exploração, definir a estratégia de correção ou mitigação e realizar uma nova validação. Essa etapa final é importante porque impede que a organização considere resolvido um problema que ainda pode ser utilizado por um invasor.

O papel do Risk Operations Center

A evolução da Qualys também está relacionada ao conceito de Risk Operations Center, conhecido como ROC. O modelo funciona como uma camada complementar ao tradicional Security Operations Center, o SOC.

Enquanto o SOC normalmente concentra suas atividades em alertas, incidentes, eventos e respostas a ataques, o ROC procura atuar antes que uma exposição se transforme em um incidente. Seu objetivo é reunir informações sobre ativos, vulnerabilidades, identidade, nuvem, aplicações e ameaças para estabelecer uma visão unificada do risco.

Um dos problemas enfrentados pelas equipes de segurança é a fragmentação das informações. Há empresas que utilizam um painel para identidade, outro para infraestrutura em nuvem, um terceiro para endpoints e diferentes ferramentas para aplicações e vulnerabilidades. O resultado é uma rotina de alternância constante entre sistemas, sem uma visão clara das prioridades.

Essa prática pode ser descrita como um “turismo de dashboards”: os profissionais percorrem diversos painéis, mas continuam sem uma resposta objetiva sobre qual ação deve ser tomada primeiro. A proposta do ROC é reduzir essa dispersão e organizar as informações em torno do impacto para o negócio.

Brasil ganha importância no cenário internacional

Na avaliação de Thakar, o Brasil reúne características que o tornam estratégico para o desenvolvimento da cibersegurança. O país possui uma economia digital ampla, empresas de grande porte, forte presença de serviços financeiros e uma crescente dependência de plataformas digitais.

O setor bancário brasileiro, em particular, apresenta alto nível de maturidade tecnológica e enfrenta uma superfície de ataque extensa. Instituições financeiras precisam proteger operações digitais, aplicações móveis, sistemas de pagamentos, dados pessoais e ambientes em nuvem. Esse cenário cria demanda por ferramentas capazes de atuar com rapidez e precisão.

A expansão de empresas digitais em setores como varejo, saúde, indústria, energia e governo também amplia a necessidade de visibilidade sobre ativos e exposições. Quanto mais conectada é uma organização, maior tende a ser a quantidade de pontos que precisam ser monitorados e protegidos.

Além disso, as empresas brasileiras estão mais atentas à relação entre segurança, continuidade operacional e reputação. Um incidente pode provocar indisponibilidade, perdas financeiras, sanções regulatórias e danos à confiança dos clientes. Por isso, a segurança deixou de ser apenas uma questão técnica e passou a ocupar espaço nas decisões estratégicas.

Inteligência artificial muda ataque e defesa

A inteligência artificial deve alterar profundamente tanto o trabalho dos defensores quanto as estratégias utilizadas pelos criminosos. Para os atacantes, a tecnologia pode acelerar a criação de campanhas, a identificação de alvos vulneráveis, a produção de mensagens fraudulentas e a adaptação de códigos maliciosos.

Do lado da defesa, a IA pode analisar grandes volumes de dados, correlacionar eventos, identificar padrões e apoiar a tomada de decisões. Seu valor, porém, não está apenas em gerar alertas, mas em ajudar a definir quais ações têm maior potencial de reduzir o risco.

A automação também pode diminuir o tempo entre a descoberta de uma falha e a aplicação de uma resposta. Em ambientes complexos, esse intervalo é decisivo. Uma vulnerabilidade conhecida que permanece aberta por semanas pode oferecer uma oportunidade significativa para grupos criminosos.

Apesar disso, a inteligência artificial não elimina a necessidade de profissionais especializados. A qualidade das decisões depende da precisão dos dados, da configuração dos processos e da capacidade humana de avaliar contexto, impacto e prioridades.

Gestão autônoma exige governança

A adoção de mecanismos autônomos deve ser acompanhada por regras claras de governança. Nem toda correção pode ser aplicada automaticamente, especialmente em sistemas críticos, operações industriais ou ambientes que sustentam serviços essenciais.

As empresas precisam definir quais ações podem ser executadas sem aprovação, quais dependem de validação humana e como registrar cada decisão tomada pela plataforma. Também é necessário manter inventários atualizados, classificar ativos por importância e estabelecer responsáveis por cada etapa do processo.

Outro ponto essencial é medir resultados. A eficiência de um programa de segurança não deve ser avaliada apenas pelo número de vulnerabilidades encontradas. Indicadores como tempo médio de correção, quantidade de exposições realmente exploráveis, redução do risco em ativos críticos e reincidência de falhas oferecem uma visão mais útil.

Uma mudança de mentalidade

A estratégia defendida pela Qualys representa uma mudança de foco: sair da lógica de acumular descobertas e avançar para a capacidade de reduzir exposições de forma mensurável.

Nesse modelo, a tecnologia deve ajudar as equipes a responder perguntas concretas: quais ativos são mais importantes, quais riscos podem afetar diretamente a operação, quais vulnerabilidades são exploráveis e quais medidas produzem o maior impacto no menor tempo.

Para empresas brasileiras, essa abordagem pode ser especialmente relevante diante do crescimento da superfície digital e da escassez de profissionais especializados. Ao combinar automação, inteligência artificial, validação contínua e integração de dados, as organizações podem concentrar seus recursos nos riscos que realmente ameaçam o negócio.

A tendência é que a gestão de risco cibernético se torne cada vez mais orientada por contexto, velocidade e capacidade de ação. Nesse cenário, o Brasil aparece não apenas como um mercado consumidor de soluções de segurança, mas como um ambiente estratégico para inovação, desenvolvimento de novos serviços e consolidação de modelos mais inteligentes de proteção digital.